'David da Vinci', o menino gênio mexicano com QI superior ao de Einstein
04/05/2026
(Foto: Reprodução) 'Não somos extraterrestres: temos altas habilidades, mas continuamos sendo crianças', comenta David.
BBC
David Camacho provavelmente não irá gostar do título desta reportagem.
Primeiramente, porque não se identifica com a descrição de "menino gênio", embora seu quociente de inteligência (QI) de 162 esteja muito acima dos 130 fixados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como mínimo para considerar uma pessoa com altas habilidades ou intelectualmente superdotado.
"Os gênios já estão no túmulo e, se foram gênios, é porque fizeram coisas geniais", explica ele, modestamente, à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
Em segundo lugar, porque ele admite que não lhe agrada muito ser comparado com outras mentes brilhantes, como a dos físicos Stephen Hawking (1942-2018) ou Albert Einstein (1879-1955), que tinham QI estimado de 160.
"Tenho 10 anos e estou apenas começando", prossegue ele. "Talvez eu seja um gênio quando tiver 70 anos, mas quando tiver feito coisas geniais na vida, certo?"
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Mas existe, sim, um gênio que serve de inspiração para o menino. Ele chegou a adotar seu sobrenome nas redes sociais, onde é conhecido como "David da Vinci".
"Minha professora do jardim da infância me ensinava muito sobre Leonardo da Vinci [1452-1519] e como ele era polímata: alguém que combina as ciências, tecnologia, engenharia, matemática, artes, ciências humanas... de tudo um pouco", recorda ele.
"Fiquei impressionado com a sua história, até que disse: 'Quero ser como ele', para fazer grandes coisas."
E, por enquanto, David parece estar bem encaminhado rumo a este sonho.
Da Nasa para o seu próprio livro
Eloquente, sempre sorrindo e com um discurso articulado e surpreendente para sua pouca idade, este menino de Querétaro, na região central do México, conta casualmente que oferece conferências em universidades e para organismos internacionais. E está a ponto de publicar um livro.
David Camacho também teve a "grandiosa oportunidade" de ser selecionado para visitar a sede da Nasa em Houston, no Estado americano do Texas. Ele participou de um programa de treinamento espacial, pilotou um voo simulado e vivenciou a gravidade zero.
Seu futuro poderá levá-lo em direção à Nasa, mas ele não quer fechar nenhuma porta.
"Gostaria de fazer a primeira cirurgia no espaço", ele conta. "Criar a próxima SpaceX, ser o próximo Elon Musk, algo assim. Combinando tudo com os negócios, com as ciências humanas... tenho toda a vida pela frente!"
David Camacho participou de um programa de treinamento espacial na Nasa.
Nasa
Atualmente, David Camacho estuda em uma escola internacional online, que o certificará para poder entrar na universidade. Ele fala espanhol, inglês, francês e alemão e começou a estudar russo, português e italiano.
Ele garante que é "um orgulho" ter um quociente de inteligência tão alto e o que ele mais aprecia em ser uma criança com altas habilidades é poder entender tudo rápido e aprender de forma acelerada.
"Não são muitas as pessoas que nascem assim, de forma que eu gostaria de usar isso em favor das crianças e do bem-estar da humanidade, deixar a minha marca", afirma ele.
Mas ele acredita que nem todos entendem o que é ser um menino gênio.
"Muitas pessoas pensam que devemos saber tudo, mas não somos adivinhos, é preciso que nos ensinem. Não significa que temos todas as respostas do universo."
"Muitas vezes, eles me desafiam, dizendo: 'Se você é um menino gênio, diga a raiz quadrada não sei do quê, multiplique por tanto...' Espere, se eu não aprendi, não vou saber!", ele conta, rindo.
Combatendo o bullying
Sua mãe, Claudia Flores, recorda as primeiras indicações que a fizeram pensar que havia algo especial com David.
"Fazíamos uma longa viagem na estrada e ele sabia cerca de 40 canções infantis", relembra ela.
"Nós o mandamos para a escola e ele ficou feliz por 15 dias. Mas, depois, começou a pedir: 'Me passe para as crianças maiores, quero aprender mais'."
"Aquilo me entediava muito", conforma ele.
Mas o momento decisivo chegou com a pandemia de covid-19. Sua mãe se sentou ao seu lado enquanto ele fazia as aulas online e percebeu que era verdade que ele aprendia muito rapidamente, em comparação com as outras crianças.
"Perguntei até que número ele sabia e acabamos contando até os milhões", relembra a mãe.
"Por isso, comecei a pesquisar o que eram crianças com altas habilidades e especialistas me disseram como cuidar disso."
A mãe de David Camacho percebeu que seu filho aprendia com muita rapidez, em comparação com as outras crianças.
BBC
Mas, apesar de todas as suas conquistas, chegar até aqui não foi fácil para David. Ele conta que sofreu muito naquela que era a escola dos seus sonhos.
"As outras crianças não entendiam por que alguém que acabava de entrar na escola conseguia saber mais coisas do que eles, nem como podia fazer tantas coisas", explica ele. "E a sua forma de demonstrar isso era me fazendo bullying."
Ele decidiu recentemente aproveitar esta má experiência para dar a volta por cima e empregá-la para desenvolver o aplicativo Macayos, que estará disponível ao longo deste ano.
Ele o define como "a primeira plataforma digital mexicana criada com inteligência artificial, que ensina às crianças, de forma divertida, capacidades para saber gerenciar suas emoções".
David Camacho pede a todos os que praticam bullying com crianças como ele que sejam empáticos e inclusivos.
"Não somos extraterrestres: temos altas habilidades, mas continuamos sendo crianças."
Ele, de fato, reconhece que muitas das suas relações são com pessoas adultas, pois sente que "não se encaixa" com muitas crianças. Mas também garante que faz coisas habituais da sua idade, como brincar com seus blocos de montar ou ir ao parque.
"Muitos pensam que sou um menino disfarçado de adulto, mas sou um menino que faz coisas de criança... e também parte das coisas de adultos", resume ele.
O diagnóstico
'David da Vinci' teve sorte porque seu diagnóstico de altas habilidades chegou com relativa rapidez à sua vida.
Muitas crianças são identificadas erroneamente como tendo transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), por se apresentarem inquietas ou se entediarem na escola. E também pode haver confusão com o autismo.
"O que acontece é que a criança já entendeu o que está sendo explicado e quer algo mais", indica Flores.
Estimativas elaboradas por instituições como o Centro de Atenção ao Talento do México (Cedat) indicam que pode haver um milhão de crianças superdotadas no país. Mas a grande maioria não foi identificada e 93% deles foram mal diagnosticados.
"Tenho certeza de que existem no México muitas crianças como eu que não recebem apoio, nem orientação", afirma o menino.
"Fico muita triste ao ver que existem grandes talentos que precisam ir para outros países porque sua família não teve os recursos ou porque não encontraram oportunidades por aqui."
No Brasil, a organização Mensa, fundada em 1946 no Reino Unido para reunir pessoas superdotadas, calcula que possa haver cerca de 4 milhões de brasileiros "superinteligentes", entre adultos e crianças — ou seja, com QI acima dos 130 pontos.
Sua inspiração em Leonardo da Vinci gerou o nome com que ele é conhecido nas redes sociais: 'David da Vinci'.
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Durante toda a entrevista, David Camacho fala com muita rapidez. Ele pula de um tema para outro com facilidade e retorna, se achar que se esqueceu de mencionar algo importante.
Claudia Flores reconhece que ser mãe de um menino como ele é um grande desafio.
"Ser a mãe de Edgar David Camacho Flores é muito fácil, pois ele é um menino tranquilo, nobre e amoroso. Mas ser mãe de David da Vinci é o desafio, pois ele é acelerado, anda correndo..."
"Eu digo que ele tem dois esquilos naquela cabecinha. Mas ele responde que não, que tem um computador quântico", conclui a mãe, sorrindo.